domingo, 1 de novembro de 2009
Infelizmente
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Mensagem do Transcritor
O Transcritor
quinta-feira, 2 de julho de 2009
E-Mail do Pombo
Manifesto contra a hipocrisia
Por Wladymir Ungaretti
Texto original divulgado em 19/06/2009
Fonte: ViaPolítica/Blog Ponto de Vista
http://www.pontodevista.jor.
O diploma não está ameaçado porra nenhuma. Acabou. Não é por acaso que a Rede Globo garante que continuará prestigiando as escolas de “comunicologia” e que, por outro lado, irá abrir espaço a especialistas de outras áreas. O PRBS, também, promete que vai continuar valorizando os cursinhos da perfumaria. É só uma flexibilização. A ditadura midiática ganha “ares de diversidade”. A medida não altera porra nenhuma em termos da produção das atuais ”informações ficcionais”, dos releases das assessorias de imprensa. Associar “qualidade da informação” com diploma é deboche. Até mesmo na história recente de Zerolândia esta associação é piada. Uma redação com hegemonia de profissionais sem diploma era dirigida pelo Lauro Schirmer. Dava para ler. Uma redação hegemonizada pelos com diploma e direção de Marcelo Rech vai para história do lixo.
Ninguém diz nada sobre a conjuntura em que o diploma foi criado. Assim, como ninguém diz nada sobre a conjuntura atual, a do fim do diploma. É preciso, no entanto, assinalar a característica básica dos dois momentos: ditadura militar e ditadura midiática. Absoluta falta de democracia. Ditabrandas. O MST pode dizer algumas coisas interessantes sobre o tema. Na militar, as redações eram “controladas” por intelectuais de esquerda. A ditadura precisava de “profissionais” com outro perfil. No começo foi quase impossível. A meninada (com o diploma) mandava “bala” contra a ditadura. E os “velhos” jornalistas prestigiavam. No mínimo faziam vistas grossas. Na atualidade, o fim do diploma “flexibiliza” e reforça os cursinhos técnicos de “comunicologia”. Uma adequação ao Deus Mercado. A grande novidade - e a mídia corporativa precisa - será a formação de “showrnalistas” especializados na transmissão de infográficos online. Ou de “especialistas” em segurar microfone. Isso tudo é uma grande piada.
Está aberta, no entanto, a possibilidade de implodirmos com os cursos de “comunicologia”, pela esquerda. Está aberta a possibilidade de formação de jornalistas marginais, subversivos e da periferia. Estes cursos populares darão prioridade à formação do caráter. Não esquecendo, é claro, que a esquerda sabonete é um zero à esquerda. Uma idéia anarquista. Em 20 anos de Fabico (Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS) nunca tive um aluno negro que não fosse africano. Não tive em aula um estudante de jornalismo morador da Lomba do Pinheiro (periferia de Porto Alegre). Estamos de olho na possibilidade de construção de escolas de jornalismo na periferia. Currículo de Agiprop (agitação e propaganda). Contra o sistema. Luta de classes existe, sim. O “showrnalismo” que a mídia corporativa faz ficará “melhor”. Zerolândia ficará melhor “qualificada”. Especialistas (não diplomados) poderão brilhar.
Comecei na profissão com Marcos Faerman (Marcão), trabalhei com Pilla Vares, João Aveline e José Onofre; tive aulas de marxismo e de jornalismo com Marco Aurélio Garcia, criador do primeiro Caderno de Cultura de ZH; também tive algumas lições de jornalismo com Jefferson de Barros. Jornalistas eram intelectuais e de esquerda. O diploma que predominava era o de advogado. Nenhum jornalista da República de Livramento (Bicudo e outros) tem diploma. Acho que o Trindade e o Vieira também não. Boa parte da redação da Folha da Manhã, da Caldas Junior, não tinha diploma. O decreto que cria a habilitação em Relações Públicas, dentro dos cursos de “comunicologia”, foi assinado pelo Jarbas Passarinho e o Delfim Neto. Não consegui o registro por ter passado uma temporada na cadeia. Fui obrigado a fazer a faculdade. Tenho o tal do diploma. Sou professor por um descuido do sistema.
Os atuais cursinhos técnicos de “comunicologia” continuarão formando o pessoal que é treinado para escrever 30 linhas. (ponto) Bons de telefone. (ponto) Ou então com qualificação para buscar release na Secretária de Segurança Pública. (ponto). Para os que possuem o DNA da profissão o diploma é um detalhe. E quando não existia Internet o cara “cascateava” e não tinha como denunciar. A informação ficava restrita ao meio profissional. Agora, o cara “cascateia” e um blogueiro (não “showrnalista”) denuncia e é processado. A rede de conivências corporativas é silenciosa. Só faz estardalhaço na defesa da “liberdade de imprensa”, deles.
Os atuais “showrnalistas”, todos diplomados, são e continuarão sendo cartógrafos do sistema. Mapeadores serviçais das elites. Nenhum dos 30 melhores alunos que tive em 20 anos de Fabico trabalhou em Zerolândia, poucos andaram (passagens rapidíssimas) por outros veículos da mídia corporativa e todos, literalmente todos, exercem a profissão comprometidos com a vida. Acho que dei minha contribuição na formação desses jornalistas. Para todos eles o diploma foi um detalhe. Uma imposição burocrática e autoritária. Quase sempre de professores que não deram certo na profissão. Ou de acadêmicos que nunca passaram nas proximidades de uma redação. Professores qualificados com o dinheiro público (mestrado e doutorado), com pouco tempo de serviço nas salas de aula das instituições públicas, hoje aposentados, trabalham nas particulares. E, estranhamente, professores que passaram grande parte de suas vidas lecionado nas universidades privadas, acabam se aposentando pelas instituições públicas. Concursados, é claro. É a rede. Sim, a rede de conivências corporativas.
O que vai acontecer? Não sei. A todos os piratas, hackers e anarquistas e loucos, de um modo geral, desejo sucesso na multiplicação dos espaços de liberdade. A clandestinidade exige atenção, humildade, intuição e pode ser o caminho para o exercício do jornalismo com o velho sentido da profissão. Propomos a multiplicação de planfletos eletrônicos. A realização de bacanais. De orgias eletrônicas panfletárias contra o sistema. Pela realização dos prazeres criminosos e ilegais. Abandonamos a idéia dos piquetes. O melhor é vandalizar. Não significa porra nenhuma protestar. Queremos atos de desfiguramento. Não aceitamos os estúpidos desperdícios como, por exemplo, a imensa quantidade de papel gasto em jornais de merda. Lutamos pela destruição dos símbolos dos impérios da “comunicologia”. Zerolândia é criminosa. Aliena. O diploma não está ameaçado porra nenhuma. Nunca esteve. Acabou. (ponto) Fotografem a miséria conversando com os miseráveis. Aprendendo com eles. Pela ação dos marginais, dos que estão à margem, avançamos contra a barbárie.
Jornalistas, como agentes da subversão, nunca se inscrevem para concorrer a prêmios. E muito menos ainda para o Prêmio Ari-Gó. Não são os “showrnalistas” que são premiados, mas as empresas para quais vendem a alma. É tudo matéria 500. É parte da política de relações públicas. A Esso criou o Repórter Esso para combater a campanha do Petróleo é Nosso. E o “camarada” Lula poderá ser presidente do Banco Mundial.
Viva Hélio Oticica e os parangolés!!! Queremos tudo Zensentido. Glauber Rocha não tinha diploma de porra nenhuma. E, assim, ameaçava a burguesia. Como dizia o velho guerreiro Chacrinha: “quem não se comunica se trumbica”.
Mil desculpas
se às vezes
perco o ímpeto
radical
Da raiz
PALAVRAS como estiletes
CORTANTES.
Wladymir Ungaretti é jornalista e professor de jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do sul (UFRGS). É editor do blog Ponto de Vista.
Para saber mais sobre o trabalho de Wladymir Ungaretti leia http://www.
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Mensagem do Transcritor
terça-feira, 30 de junho de 2009
O delírio do Pombo
Despertei durante a noite anterior com uma sede imensurável após um suor noturno. Não havia água alguma senão aquela transportada pelos dutos precários de uma empresa sórdida. O gole foi inevitável, e o líquido desceu por meu duto digestivo proporcionando-me um sensível prognóstico daquilo que estava sendo preparado para minhas funções orgânicas no dia seguinte.
Em meio aos distúrbios gástricos e psicológicos de minha vida constatei que a presença do Pombo me ocorre somente quando estou disponível e salubre para contemplar com a mais acentuada concentração a sua presença mística, e torna-la aceitável a minha cognição de modo a não desprezar nenhuma parte da mensagem.
Após a devida dedicação para aliviar meu organismo do veneno canalizado, parte da consciência me foi restituída. Ao acordar tinha percebido claramente que estava no mundo empírico, porém demorava-me a deixar o reino onírico, com direito a lapsos de perturbações de anteriores delírios febris. Dediquei o trajeto origem a destino para tentar a passagem definitiva ao reino empírico, porém as sensações orgânicas misturadas aos sonhos durante o sono febril parecem ter criado uma intersecção temporária em minha consciência.
O Pombo estava em meu destino, assim como o havia imaginado. Estava pousado na soleira sob um jornal de distribuição gratuita do qual já havia me apropriado duma versão. Lia atentamente enquanto eu adentrava o cômodo.
- Estás acabado cara! Imagino que deves ter passado por uma longa viajem num destes seus “deslizadores asfálsticos” urbanos de transporte coletivo.
- Atividade curricular, nenhuma novidade fora as entrevistas coletivas de populares com cobradores sobre a iminente paralisação. Com respostas sempre objetivas, como num coro de greve. – O Pombo me observou durante estes poucos segundos de modo a avaliar-me psicologicamente, parecia interessar-se verdadeiramente com o meio de sua mensagem.
- Vista de cima, sua infra-estrutura de transporte é inviável sob quaisquer pontos de vista. Os fluxos populacionais vão à direção de inúmeros funis viários, tornando estes, pontos estranguladores do fluxo de outras vias. Sem contar a impossibilidade de expansão destes pontos problemáticos, já que o limite destas vias são os limites geográficos naturais de uma cidade ilha: o mar e os manguezais. Já observei noutras cidades estratégias menos primitivas de infra-estrutura viária, como as alternativas acima e abaixo da superfície, com grandes elevados acima das vias existentes e transporte subterrâneo para o fluxo massivo de populares. Más o aterramento indiscriminado que ocorre em sua cidade é a forma mais estúpida de resolução de problemas estruturais que já constatei. – O Pombo parecia demasiadamente agitado, sacudindo-se e gesticulando com movimentos rápidos das asas. De minuto em minuto observava discretamente algo no céu, como se aguardasse um sinal.
- Temo que minha interferência comunicativa em sua mídia tenha sido descoberta por algum caçador de pombos. Eles vêm disfarçados de agentes da secretaria de saúde pública, porém são matadores treinados e têm um vasto conhecimento sobre nossas sociedades e ocasionais relações com humanos. Por este motivo não virei mais a seu encontro, enviar-lhe-ei mensagens codificadas, saberás como discerni-las e decodifica-las, au revoir homo sapiens sapiens.
Os temores do Pombo eram explícitos para mim agora. Havia dois homens escorados no muro de fronte a minha janela durante a visita do Pombo, conversavam efusivamente em meio a gesticulações e contatos físicos amistosos. Após a sua partida, os dois homens se puseram a olhar para o céu, um deles com uma espécie de óculos com aparato de visão digital, outro com um computador portátil onde registrava algo que o primeiro lhe citava. Em seguida os dois homens adentraram um Audi preto e partiram em alta velocidade.
Espero que meu amiguinho consiga despista-los, quanto a mim, não consigo manter-me indiferente a esta questão perturbadora que é a conspiração, porém manter-me-ei lúcido até a próxima comunicação entre espécies.
O Transcritor
sexta-feira, 26 de junho de 2009
A Boêmia do Pombo
- E ai, cara! – Disse o pombo num tom amistoso, algo que esperava em sua segunda aparição.
- Gostei do modo que transmitiste a nossa última ação comunicativa entre espécies. Não se precipite ao analisar o feedback dos leitores, o reconhecimento há de vir com o tempo. - Seu olhar mostrou-se irônico e maldoso, o sorriso subseqüente me ocasionou um choque psíquico. Era algo sobrenatural, seu bico antes rigidamente prostrado no centro de suas expressões tomou qualidades elásticas ao acompanhar o estiramento de sua região facial em direção a seus orifícios auditivos.
Não era um pássaro comum, ou pior, era? Imaginei por alguns instantes a possibilidade de todos os pombos serem tão bem informados quanto meu amigo de plumas escuras, o que me causou arrepios. Continuava questionar-me usualmente sobre aquilo que realmente conhecia sobre o fenômeno Pombo. Foi como se ele soubesse o que se passava em minha mente.
– A maioria dos meus amigos pombos são demasiadamente egocêntricos para se preocuparem com questões humanas, só querem saber de restos alimentícios abundantes e enormes prédios para construírem seus clubinhos secretos. Rola muita discórdia entre nós, sabe? Mais se fosse para apostar numa espécie que conspiraria contra os humanos eu colocaria toda minha grana nas baratas!
- Você não disse que viria no dia de ontem? – Perguntei apenas para fugir da temática dos conflitos sociais entre espécies, algo que me atordoava tanto quanto a consciência de um pombo falante.
- Pombos não têm sua noção temporal, além do mais sou um pombo boêmio, e afinal de contas quem são vocês para dizerem qual a água que o passarinho não bebe? Bom, não pareces muito interessado no cotidiano de outras espécies, então vamos aos fatos.
Alçou voo até a pia de minha cozinha onde encontrou um copo de caipirinha pela metade, deu algumas bicadinhas e cuspiu em seguida.
- Você bebe mal hein! Esperava um Jack Daniel´s. Tenho um enorme repúdio por palestras de faculdades particulares sobre a extinta obrigatoriedade do diploma, para o exercício da profissão jornalística. – Suas últimas palavras foram pronunciadas ironicamente em tom militar com ares de saudação patriótica.
- Os cursos de jornalismo já estavam falidos! Os coordenadores apenas faziam de tudo para maquiar o inevitável despenque. Agora que despencou, da-lhe tapa nos não diplomados! Bóra pra nossa instituição de ensino pseudo-superior privado de formatação e condicionamento de peças de encaixe. Pergunto: o jornalismo realmente é uma formação para os profissionais da comunicação? Andei questionando-me ultimamente sobre esta questão última. Se os cursos estão ficando cada vez mais “tecnicístas”, é por que fica cada vez mais perigoso ter pessoas com formação lidando com informação, ao menos para o interesse daqueles detêm a opinião. Simples, não acha?
Fiquei estarrecido perante a declaração do pombo, seu raciocínio era muito rápido, ou seu discurso era decorado.
- E a Deise aí? E o Michael? Não é que eu desconsidere a tristeza e a dor das famílias, pois pombos também têm família, amantes, bom deixa pra lá. Más esta cobertura da mídia é o que me incomoda, a busca por conseguir uma informação relevante e inédita nestes acontecimentos espetaculares faz com que o resultado seja uma balbúrdia informacional, uma fragmentação irrelevante de um tema sem ligação com o cotidiano humano saudável, saliento esta frase com a palavra saudável pois para os cidadãos do espetáculo a esta condição seria inversa, pois sua saúde psíquica é determinada pelo espetáculo, apesar desta estar completamente desvinculada com sua natureza e habitat.
- Há muito que divagar a respeito de sua mídia, porém prefiro conversar sobre algo mais interessante, Zé Ramalho. - Alçou voo em direção ao meu notebook, bicou alguns atalhos no teclado com auxílio da garra da pata direita, e pôs para tocar Admirável Gado Novo.
- Como já havia lhe dito, sou grande admirador de Aldous Huxley, e a versão “contemporeizada” com adaptações a realidade brasileira de Zé é uma obra incrível. É pena que sua mídia tenha utilizado com ênfase e repetição o refrão acabando por suprimir o conteúdo da mensagem da música, um sacrilégio! Deixo aqui a minha crítica, o refrão é pro gado cantar! – Exprimiu através destas últimas palavras aspectos de um discurso militante, o pombo realmente tinha certa empatia para com o ser humano.
- Bom, vou-me. Espero que esta minha visita sirva para que melhores teus hábitos etílicos, au revoir.
Alçou voo sem demora tomando os céus para si, senti uma pitada de inveja por suas habilidades. Creio que este sentimento seja intrínseco ao instinto humano por uma questão de sobrevivência, e logo após, por egocentrismo, teocentrismo, americanismo, Etc. Por estes motivos temos nos considerado acima de outras espécies, e consequentemente, exercermos poder por sobre elas.
Meu cotidiano continua, e segue a espera do novo encontro com o Pombo monólogo. Ao que me parece concordamos plenamente sobre irrelevância de meu ponto de vista em nossos encontros.
O Transcritor
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Admirável Pombo Novo
Abri a veneziana de minha alcova empestada de odores para pitar meu primeiro sedativo do dia, quando me dei conta da presença de um pombo de cabeça preta e corpo acinzentado, seu pescoço refletia a luz sob a forma de uma multi-coloração metalizada. Acredito que do instante que reparei sua presença até o primeiro sinal de interação passaram-se uns cinco minutos. A ave não manifestou qualquer repúdio a minha presença, parecia indiferente a mim, ou algo um tanto mais agressivo, estava a me ignorar.
Acredito que começou a sentir-se intimidado por minha presença quando voltei meu olhar a seus pequenos olhinhos vermelhos, neste momento ele se pôs a encarar-me seriamente por alguns instantes, (mal posso recordar tal reação do pássaro pela aflição a qual esta imagem me conduz, apenas tinha certeza de constatar agressividade em seu olhar).
- Qual é o problema, Cara!? - Disse o pombo num tom agressivo.
Não recordo ao certo os instantes que se passaram após esta inesperada ação de um ser não humano, meu cérebro certamente entrou em estado de alerta e me deixou catatônico por alguns instantes, de modo a proteger meu organismo de reações adversas, praticamente suicidas. Recordo-me de tomar consciência num estalido e defrontar-me novamente com a imagem do pombo me encarando literalmente. Aquilo não era uma alucinação derivada de alguma disfunção química, estava realmente acontecendo. Más algo no íntimo de meu ide me forçava a confrontar o acontecimento com certo ceticismo, afinal de contas, eu era o ser racional.
- Na realidade, estava mesmo querendo divagar com alguém sobre minhas opiniões acerca de sua sociedade primitiva - Desta vez a pronuncia de suas palavras foi invejavelmente bem entoada, parecia ter total domínio sobre o léxico culto. Permaneci imóvel e me senti incapaz de pronunciar palavra alguma.
- Não está a me entender? If you prefer, I can speak English, or one hundred more languages, if you like.
Neste momento, senti o estalo da trava que me impedia de executar função alguma se soltando. Pude progressivamente pronunciar algumas palavras vagarosamente - Quem ou o que é você?
- Em primeiro lugar, pombo não fala então você também não falará com o pombo, estás a me entender? Ao menos em público - Disse o pombo num tom áspero, revelando ironicamente suas intenções maquiavélicas.
Assenti com a cabeça num movimento involuntário de pavor, más não conseguia reagir, nem ao menos parar de fitar os olhos do pássaro, inacreditavelmente expressivos.
- Em segundo lugar, pombos não têm nomes, então me entenda somente como um pombo qualquer. Em terceiro lugar, vais me ajudar a divulgar minhas opiniões e idiossincrasias acerca de sua mídia, da qual sou um ferrenho estudioso. Não me entenda mal, não estou a lhe pedir que assines minha opinião e seja meu representante humanóide em suas comunicações, peço-lhe apenas que crie um Blog com meu nome. Como deves imaginar, estou par de suas inovações tecnológicas e as possibilidades da internet como disseminadora de conteúdo. Então, acredito que até mesmo as opiniões de um pombo sejam mais relevantes do que aquelas que circulam nos veículos de comunicação de massa, mensagens das quais não obtenho conhecimento algum sobre um contexto amplificado dos eventos, e sinto-me subliminarmente levado a crer em um recorte atemporal transcrito por um jornalista acéfalo. Prefiro mil vezes dar uma voadinha até o local do evento para estar completamente inteirado sobre o assunto, e provavelmente oferecer algumas conjecturas sobre os possíveis efeitos do evento no cotidiano de diferentes sociedades.
Me senti um pouco estupefato pelo bombardeio gramatical do pombo, más comecei a perceber que tinha idéias em comum com a pequena ave, e se realmente ela gostaria de um espaço para divulgar sua crítica mordaz, quer dizer, "bicaz", não seria trabalho algum transcrever tão bela prosa. Convidei o pombo para entrar em meu apartamento, as pessoas na rua começavam a se incomodar com a visão de um ser humano de aparência um tanto não-sociável a fitar um pássaro imundo, como eles os chamam - "Ratos de asas".
- Viste a expressão daqueles imbecis? – Disse o pombo abrindo e fechando o bico com agressividade - Este é um dos motivos que me levaram a revelar meus dons comunicacionais a você! Estive observando-o por alguns momentos nos jardins deste prédio, e fiquei intrigado ao observa-lo interagindo empaticamente com alguns animais que estavas a fotografar, não o vi como um ser humano estúpido que se considera superior por sua reles racionalidade, estavas a agir com um semelhante, cara, és um animal!
Nestas últimas palavras seu discurso passou a um tom ironicamente "malandro", sua pronuncia culta se misturou com uma gíria forçosa, lembrei neste instante que os animais possuem o verdadeiro senso de humor, despido de carícias ao ego. Lembrei-me do lobo e do erro de Harry Haller.
- Outro motivo é esta sua literatura aí! Uma beleza, gosto principalmente daquele pequeno título amarelado acima do Contra-Ponto, O Admirável Mundo Novo de Aldous Leonard Huxley, uma obra prima que serviu de ponto de partida teórico para o romance A Ilha, certamente sua mais bela obra de literatura.
- Concordo com sua opinião acerca deste último título, Huxley ao fim de sua vida finalmente depositou esperança sob um "ser jornalístico". Me sinto um pouco Will Farnby.
- Bom, mais chega de devaneios, vamos ao que interessa - Disse o pombo mudando de assunto e dando um pulinho de inquietação - Todos os dias virei te visitar para divagar um pouco sobre o que ando lendo e vendo em sua mídia, e expor minha opinião crítica acerca da atuação desta. Como ponto de partida para a criação do Blog, vou lhe oferecer um relato do que tenho escutado através de meus pousos sob as janelinhas das salas de aula da faculdade Estácio de Sá, que como deves saber, é um belo ponto de partida para a análise dos tidos como profissionais da mídia. - Reparei uma expressão de desgosto em sua face avina, rangendo suavemente o bico após pronunciar estas últimas palavras.
- Lá tem um palhaço que dizem ser o coordenador do curso de jornalismo, mas pra mim, não passa de um reles ator de comerciais publicitários, que chega a fazer jogo de entonações enquanto atrapalha as minhas estimadas aulas de teoria para dar seus recadinhos institucionais sobre festinhas “espetaculósamente” publicitárias, e eventos mercadológicos no campus da empresa. Este tal de Paulinho oferece um reflexo fiel da mídia diária. Atrapalhado, Marketeiro, Superficial, Dês-Informador e agente de dissolução de eventos com real importância. Tenho um certo medo de ser descoberto por este ser medíocre, ou médio, como for. Temo que se descoberto posso ser depenado em uma sala de interrogatório da empresa, por isto, tenho que agir discretamente em minhas perambulações pelo campus empresarial. Nesta parte, necessito de sua ajuda como informante. Tenho certeza que não será nem um pouco desagradável a você uma noite por semana com Fábio Messa e os tópicos especiais em jornalismo, este será o território mais fruitivo para análise dos pupilos do Paulinho. Messa é um repressor da ignorância e dês-informação, e por isso é criticado pelos “pseudo-jornalistinhas” como autoritário, demasiadamente exigente e cínico.
- Já ouvi falar do Dr. Fábio Messa, vai ser um prazer participar de seus tópicos de cinema. Tenho um pouco de medo do Sr. Paulinho, más creio que posso passar despercebido por este.
- Bom, creio que já é o bastante por hoje, tenho muito por onde voar. Veja se mantenha a janela aberta e o gato trancado. Amanhã pelo mesmo horário hei de passar por aqui novamente, espero que já tenhas publicado algo. – Após estas palavras o pássaro se alvoroçou por um instante, sacudindo freneticamente suas asinhas e fazendo tremer o peito penoso. Após este pequeno ritual, despediu-se na linguagem de pombo e desapareceu de meu campo visual. Ainda custava-me a situar minha racionalidade no momento de tal acontecimento, parecia que haviam se passado horas desde sua chegada, porém os ponteiro do relógio se moveram apenas por alguns minutos. O pombo realmente foi objetivo em sua abordagem, tive certeza que devia ter outros informantes e Copy Desk´s pelo mundo.
Num período tão desiludido de minha vida este acontecimento surge como uma motivação, realmente, há lógica nas funções orgânicas do planeta terra. Se um pássaro, que até o presente instante eu tinha como ser irracional, pôde mostrar-se crítico acerca do mundo em que vivemos, por que eu como ser irremediavelmente pensante tenho de permanecer calado?
Manter-me-ei em potencial sigilo para proteção da identidade do pombo. E afinal de contas, quem confiaria em alguém que conversa como pombos? Más como nem tudo possui uma lógica positivista neste mundo, há de existir alguém que admire as sabedorias do Pombo.
O Transcritor.
