--> Ouvi um alvoroçar de asas sob o pequeno parapeito de mármore da janela, era o sinal para abdicar de todos os questionamentos lógicos sobre a veracidade do acontecimento da manhã de quarta-feira. Tudo em vão, pois se manifestava novamente.
- E ai, cara! – Disse o pombo num tom amistoso, algo que esperava em sua segunda aparição.
- Gostei do modo que transmitiste a nossa última ação comunicativa entre espécies. Não se precipite ao analisar o feedback dos leitores, o reconhecimento há de vir com o tempo. - Seu olhar mostrou-se irônico e maldoso, o sorriso subseqüente me ocasionou um choque psíquico. Era algo sobrenatural, seu bico antes rigidamente prostrado no centro de suas expressões tomou qualidades elásticas ao acompanhar o estiramento de sua região facial em direção a seus orifícios auditivos.
Não era um pássaro comum, ou pior, era? Imaginei por alguns instantes a possibilidade de todos os pombos serem tão bem informados quanto meu amigo de plumas escuras, o que me causou arrepios. Continuava questionar-me usualmente sobre aquilo que realmente conhecia sobre o fenômeno Pombo. Foi como se ele soubesse o que se passava em minha mente.
– A maioria dos meus amigos pombos são demasiadamente egocêntricos para se preocuparem com questões humanas, só querem saber de restos alimentícios abundantes e enormes prédios para construírem seus clubinhos secretos. Rola muita discórdia entre nós, sabe? Mais se fosse para apostar numa espécie que conspiraria contra os humanos eu colocaria toda minha grana nas baratas!
- Você não disse que viria no dia de ontem? – Perguntei apenas para fugir da temática dos conflitos sociais entre espécies, algo que me atordoava tanto quanto a consciência de um pombo falante.
- Pombos não têm sua noção temporal, além do mais sou um pombo boêmio, e afinal de contas quem são vocês para dizerem qual a água que o passarinho não bebe? Bom, não pareces muito interessado no cotidiano de outras espécies, então vamos aos fatos.
Alçou voo até a pia de minha cozinha onde encontrou um copo de caipirinha pela metade, deu algumas bicadinhas e cuspiu em seguida.
- Você bebe mal hein! Esperava um Jack Daniel´s. Tenho um enorme repúdio por palestras de faculdades particulares sobre a extinta obrigatoriedade do diploma, para o exercício da profissão jornalística. – Suas últimas palavras foram pronunciadas ironicamente em tom militar com ares de saudação patriótica.
- Os cursos de jornalismo já estavam falidos! Os coordenadores apenas faziam de tudo para maquiar o inevitável despenque. Agora que despencou, da-lhe tapa nos não diplomados! Bóra pra nossa instituição de ensino pseudo-superior privado de formatação e condicionamento de peças de encaixe. Pergunto: o jornalismo realmente é uma formação para os profissionais da comunicação? Andei questionando-me ultimamente sobre esta questão última. Se os cursos estão ficando cada vez mais “tecnicístas”, é por que fica cada vez mais perigoso ter pessoas com formação lidando com informação, ao menos para o interesse daqueles detêm a opinião. Simples, não acha?
Fiquei estarrecido perante a declaração do pombo, seu raciocínio era muito rápido, ou seu discurso era decorado.
- E a Deise aí? E o Michael? Não é que eu desconsidere a tristeza e a dor das famílias, pois pombos também têm família, amantes, bom deixa pra lá. Más esta cobertura da mídia é o que me incomoda, a busca por conseguir uma informação relevante e inédita nestes acontecimentos espetaculares faz com que o resultado seja uma balbúrdia informacional, uma fragmentação irrelevante de um tema sem ligação com o cotidiano humano saudável, saliento esta frase com a palavra saudável pois para os cidadãos do espetáculo a esta condição seria inversa, pois sua saúde psíquica é determinada pelo espetáculo, apesar desta estar completamente desvinculada com sua natureza e habitat.
- Há muito que divagar a respeito de sua mídia, porém prefiro conversar sobre algo mais interessante, Zé Ramalho. - Alçou voo em direção ao meu notebook, bicou alguns atalhos no teclado com auxílio da garra da pata direita, e pôs para tocar Admirável Gado Novo.
- Como já havia lhe dito, sou grande admirador de Aldous Huxley, e a versão “contemporeizada” com adaptações a realidade brasileira de Zé é uma obra incrível. É pena que sua mídia tenha utilizado com ênfase e repetição o refrão acabando por suprimir o conteúdo da mensagem da música, um sacrilégio! Deixo aqui a minha crítica, o refrão é pro gado cantar! – Exprimiu através destas últimas palavras aspectos de um discurso militante, o pombo realmente tinha certa empatia para com o ser humano.
- Bom, vou-me. Espero que esta minha visita sirva para que melhores teus hábitos etílicos, au revoir.
Alçou voo sem demora tomando os céus para si, senti uma pitada de inveja por suas habilidades. Creio que este sentimento seja intrínseco ao instinto humano por uma questão de sobrevivência, e logo após, por egocentrismo, teocentrismo, americanismo, Etc. Por estes motivos temos nos considerado acima de outras espécies, e consequentemente, exercermos poder por sobre elas.
Meu cotidiano continua, e segue a espera do novo encontro com o Pombo monólogo. Ao que me parece concordamos plenamente sobre irrelevância de meu ponto de vista em nossos encontros.
O Transcritor
- E ai, cara! – Disse o pombo num tom amistoso, algo que esperava em sua segunda aparição.
- Gostei do modo que transmitiste a nossa última ação comunicativa entre espécies. Não se precipite ao analisar o feedback dos leitores, o reconhecimento há de vir com o tempo. - Seu olhar mostrou-se irônico e maldoso, o sorriso subseqüente me ocasionou um choque psíquico. Era algo sobrenatural, seu bico antes rigidamente prostrado no centro de suas expressões tomou qualidades elásticas ao acompanhar o estiramento de sua região facial em direção a seus orifícios auditivos.
Não era um pássaro comum, ou pior, era? Imaginei por alguns instantes a possibilidade de todos os pombos serem tão bem informados quanto meu amigo de plumas escuras, o que me causou arrepios. Continuava questionar-me usualmente sobre aquilo que realmente conhecia sobre o fenômeno Pombo. Foi como se ele soubesse o que se passava em minha mente.
– A maioria dos meus amigos pombos são demasiadamente egocêntricos para se preocuparem com questões humanas, só querem saber de restos alimentícios abundantes e enormes prédios para construírem seus clubinhos secretos. Rola muita discórdia entre nós, sabe? Mais se fosse para apostar numa espécie que conspiraria contra os humanos eu colocaria toda minha grana nas baratas!
- Você não disse que viria no dia de ontem? – Perguntei apenas para fugir da temática dos conflitos sociais entre espécies, algo que me atordoava tanto quanto a consciência de um pombo falante.
- Pombos não têm sua noção temporal, além do mais sou um pombo boêmio, e afinal de contas quem são vocês para dizerem qual a água que o passarinho não bebe? Bom, não pareces muito interessado no cotidiano de outras espécies, então vamos aos fatos.
Alçou voo até a pia de minha cozinha onde encontrou um copo de caipirinha pela metade, deu algumas bicadinhas e cuspiu em seguida.
- Você bebe mal hein! Esperava um Jack Daniel´s. Tenho um enorme repúdio por palestras de faculdades particulares sobre a extinta obrigatoriedade do diploma, para o exercício da profissão jornalística. – Suas últimas palavras foram pronunciadas ironicamente em tom militar com ares de saudação patriótica.
- Os cursos de jornalismo já estavam falidos! Os coordenadores apenas faziam de tudo para maquiar o inevitável despenque. Agora que despencou, da-lhe tapa nos não diplomados! Bóra pra nossa instituição de ensino pseudo-superior privado de formatação e condicionamento de peças de encaixe. Pergunto: o jornalismo realmente é uma formação para os profissionais da comunicação? Andei questionando-me ultimamente sobre esta questão última. Se os cursos estão ficando cada vez mais “tecnicístas”, é por que fica cada vez mais perigoso ter pessoas com formação lidando com informação, ao menos para o interesse daqueles detêm a opinião. Simples, não acha?
Fiquei estarrecido perante a declaração do pombo, seu raciocínio era muito rápido, ou seu discurso era decorado.
- E a Deise aí? E o Michael? Não é que eu desconsidere a tristeza e a dor das famílias, pois pombos também têm família, amantes, bom deixa pra lá. Más esta cobertura da mídia é o que me incomoda, a busca por conseguir uma informação relevante e inédita nestes acontecimentos espetaculares faz com que o resultado seja uma balbúrdia informacional, uma fragmentação irrelevante de um tema sem ligação com o cotidiano humano saudável, saliento esta frase com a palavra saudável pois para os cidadãos do espetáculo a esta condição seria inversa, pois sua saúde psíquica é determinada pelo espetáculo, apesar desta estar completamente desvinculada com sua natureza e habitat.
- Há muito que divagar a respeito de sua mídia, porém prefiro conversar sobre algo mais interessante, Zé Ramalho. - Alçou voo em direção ao meu notebook, bicou alguns atalhos no teclado com auxílio da garra da pata direita, e pôs para tocar Admirável Gado Novo.
- Como já havia lhe dito, sou grande admirador de Aldous Huxley, e a versão “contemporeizada” com adaptações a realidade brasileira de Zé é uma obra incrível. É pena que sua mídia tenha utilizado com ênfase e repetição o refrão acabando por suprimir o conteúdo da mensagem da música, um sacrilégio! Deixo aqui a minha crítica, o refrão é pro gado cantar! – Exprimiu através destas últimas palavras aspectos de um discurso militante, o pombo realmente tinha certa empatia para com o ser humano.
- Bom, vou-me. Espero que esta minha visita sirva para que melhores teus hábitos etílicos, au revoir.
Alçou voo sem demora tomando os céus para si, senti uma pitada de inveja por suas habilidades. Creio que este sentimento seja intrínseco ao instinto humano por uma questão de sobrevivência, e logo após, por egocentrismo, teocentrismo, americanismo, Etc. Por estes motivos temos nos considerado acima de outras espécies, e consequentemente, exercermos poder por sobre elas.
Meu cotidiano continua, e segue a espera do novo encontro com o Pombo monólogo. Ao que me parece concordamos plenamente sobre irrelevância de meu ponto de vista em nossos encontros.
O Transcritor
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