quarta-feira, 24 de junho de 2009

Admirável Pombo Novo

--> Eu estava sob efeito do álcool da noite anterior, algo como uma ressaca entorpecida na qual desfrutei do sabor do vômito como subterfúgio, tinha posto para fora um bocado de lixo tóxico, provavelmente engolfado involuntariamente em meio a um bombardeio de mensagens publicitárias. Para piorar a situação fui atacado por um forte soluço. É bem verdade que me sentia um tanto desiludido., suficientemente para esquecer-me das dores físicas. A forte ilusão da noite anterior se desfez em pó. Podia recordar-me das divagações inter-pessoais da última noitada, algo que girava em torno da temática - minha sociedade e suas funções irrelevantes a meu ver. Questionei-me se haveria o que criar em meio ao caos informacional. Tudo o que faço em meu dia-a-dia é suprimido violentamente por uma maré de informações fragmentadas, oscilando em frequentes ondulações de intensidade. Estava me deixando levar pela corrente no oceano da pós-modernidade. Senti-me um pouco EMO.

Abri a veneziana de minha alcova empestada de odores para pitar meu primeiro sedativo do dia, quando me dei conta da presença de um pombo de cabeça preta e corpo acinzentado, seu pescoço refletia a luz sob a forma de uma multi-coloração metalizada. Acredito que do instante que reparei sua presença até o primeiro sinal de interação passaram-se uns cinco minutos. A ave não manifestou qualquer repúdio a minha presença, parecia indiferente a mim, ou algo um tanto mais agressivo, estava a me ignorar.

Acredito que começou a sentir-se intimidado por minha presença quando voltei meu olhar a seus pequenos olhinhos vermelhos, neste momento ele se pôs a encarar-me seriamente por alguns instantes, (mal posso recordar tal reação do pássaro pela aflição a qual esta imagem me conduz, apenas tinha certeza de constatar agressividade em seu olhar).

- Qual é o problema, Cara!? - Disse o pombo num tom agressivo.

Não recordo ao certo os instantes que se passaram após esta inesperada ação de um ser não humano, meu cérebro certamente entrou em estado de alerta e me deixou catatônico por alguns instantes, de modo a proteger meu organismo de reações adversas, praticamente suicidas. Recordo-me de tomar consciência num estalido e defrontar-me novamente com a imagem do pombo me encarando literalmente. Aquilo não era uma alucinação derivada de alguma disfunção química, estava realmente acontecendo. Más algo no íntimo de meu ide me forçava a confrontar o acontecimento com certo ceticismo, afinal de contas, eu era o ser racional.

- Na realidade, estava mesmo querendo divagar com alguém sobre minhas opiniões acerca de sua sociedade primitiva - Desta vez a pronuncia de suas palavras foi invejavelmente bem entoada, parecia ter total domínio sobre o léxico culto. Permaneci imóvel e me senti incapaz de pronunciar palavra alguma.

- Não está a me entender? If you prefer, I can speak English, or one hundred more languages, if you like.

Neste momento, senti o estalo da trava que me impedia de executar função alguma se soltando. Pude progressivamente pronunciar algumas palavras vagarosamente - Quem ou o que é você?

- Em primeiro lugar, pombo não fala então você também não falará com o pombo, estás a me entender? Ao menos em público - Disse o pombo num tom áspero, revelando ironicamente suas intenções maquiavélicas.

Assenti com a cabeça num movimento involuntário de pavor, más não conseguia reagir, nem ao menos parar de fitar os olhos do pássaro, inacreditavelmente expressivos.

- Em segundo lugar, pombos não têm nomes, então me entenda somente como um pombo qualquer. Em terceiro lugar, vais me ajudar a divulgar minhas opiniões e idiossincrasias acerca de sua mídia, da qual sou um ferrenho estudioso. Não me entenda mal, não estou a lhe pedir que assines minha opinião e seja meu representante humanóide em suas comunicações, peço-lhe apenas que crie um Blog com meu nome. Como deves imaginar, estou par de suas inovações tecnológicas e as possibilidades da internet como disseminadora de conteúdo. Então, acredito que até mesmo as opiniões de um pombo sejam mais relevantes do que aquelas que circulam nos veículos de comunicação de massa, mensagens das quais não obtenho conhecimento algum sobre um contexto amplificado dos eventos, e sinto-me subliminarmente levado a crer em um recorte atemporal transcrito por um jornalista acéfalo. Prefiro mil vezes dar uma voadinha até o local do evento para estar completamente inteirado sobre o assunto, e provavelmente oferecer algumas conjecturas sobre os possíveis efeitos do evento no cotidiano de diferentes sociedades.

Me senti um pouco estupefato pelo bombardeio gramatical do pombo, más comecei a perceber que tinha idéias em comum com a pequena ave, e se realmente ela gostaria de um espaço para divulgar sua crítica mordaz, quer dizer, "bicaz", não seria trabalho algum transcrever tão bela prosa. Convidei o pombo para entrar em meu apartamento, as pessoas na rua começavam a se incomodar com a visão de um ser humano de aparência um tanto não-sociável a fitar um pássaro imundo, como eles os chamam - "Ratos de asas".

- Viste a expressão daqueles imbecis? – Disse o pombo abrindo e fechando o bico com agressividade - Este é um dos motivos que me levaram a revelar meus dons comunicacionais a você! Estive observando-o por alguns momentos nos jardins deste prédio, e fiquei intrigado ao observa-lo interagindo empaticamente com alguns animais que estavas a fotografar, não o vi como um ser humano estúpido que se considera superior por sua reles racionalidade, estavas a agir com um semelhante, cara, és um animal!

Nestas últimas palavras seu discurso passou a um tom ironicamente "malandro", sua pronuncia culta se misturou com uma gíria forçosa, lembrei neste instante que os animais possuem o verdadeiro senso de humor, despido de carícias ao ego. Lembrei-me do lobo e do erro de Harry Haller.

- Outro motivo é esta sua literatura aí! Uma beleza, gosto principalmente daquele pequeno título amarelado acima do Contra-Ponto, O Admirável Mundo Novo de Aldous Leonard Huxley, uma obra prima que serviu de ponto de partida teórico para o romance A Ilha, certamente sua mais bela obra de literatura.

- Concordo com sua opinião acerca deste último título, Huxley ao fim de sua vida finalmente depositou esperança sob um "ser jornalístico". Me sinto um pouco Will Farnby.

- Bom, mais chega de devaneios, vamos ao que interessa - Disse o pombo mudando de assunto e dando um pulinho de inquietação - Todos os dias virei te visitar para divagar um pouco sobre o que ando lendo e vendo em sua mídia, e expor minha opinião crítica acerca da atuação desta. Como ponto de partida para a criação do Blog, vou lhe oferecer um relato do que tenho escutado através de meus pousos sob as janelinhas das salas de aula da faculdade Estácio de Sá, que como deves saber, é um belo ponto de partida para a análise dos tidos como profissionais da mídia. - Reparei uma expressão de desgosto em sua face avina, rangendo suavemente o bico após pronunciar estas últimas palavras.

- Lá tem um palhaço que dizem ser o coordenador do curso de jornalismo, mas pra mim, não passa de um reles ator de comerciais publicitários, que chega a fazer jogo de entonações enquanto atrapalha as minhas estimadas aulas de teoria para dar seus recadinhos institucionais sobre festinhas “espetaculósamente” publicitárias, e eventos mercadológicos no campus da empresa. Este tal de Paulinho oferece um reflexo fiel da mídia diária. Atrapalhado, Marketeiro, Superficial, Dês-Informador e agente de dissolução de eventos com real importância. Tenho um certo medo de ser descoberto por este ser medíocre, ou médio, como for. Temo que se descoberto posso ser depenado em uma sala de interrogatório da empresa, por isto, tenho que agir discretamente em minhas perambulações pelo campus empresarial. Nesta parte, necessito de sua ajuda como informante. Tenho certeza que não será nem um pouco desagradável a você uma noite por semana com Fábio Messa e os tópicos especiais em jornalismo, este será o território mais fruitivo para análise dos pupilos do Paulinho. Messa é um repressor da ignorância e dês-informação, e por isso é criticado pelos “pseudo-jornalistinhas” como autoritário, demasiadamente exigente e cínico.

- Já ouvi falar do Dr. Fábio Messa, vai ser um prazer participar de seus tópicos de cinema. Tenho um pouco de medo do Sr. Paulinho, más creio que posso passar despercebido por este.

- Bom, creio que já é o bastante por hoje, tenho muito por onde voar. Veja se mantenha a janela aberta e o gato trancado. Amanhã pelo mesmo horário hei de passar por aqui novamente, espero que já tenhas publicado algo. – Após estas palavras o pássaro se alvoroçou por um instante, sacudindo freneticamente suas asinhas e fazendo tremer o peito penoso. Após este pequeno ritual, despediu-se na linguagem de pombo e desapareceu de meu campo visual. Ainda custava-me a situar minha racionalidade no momento de tal acontecimento, parecia que haviam se passado horas desde sua chegada, porém os ponteiro do relógio se moveram apenas por alguns minutos. O pombo realmente foi objetivo em sua abordagem, tive certeza que devia ter outros informantes e Copy Desk´s pelo mundo.

Num período tão desiludido de minha vida este acontecimento surge como uma motivação, realmente, há lógica nas funções orgânicas do planeta terra. Se um pássaro, que até o presente instante eu tinha como ser irracional, pôde mostrar-se crítico acerca do mundo em que vivemos, por que eu como ser irremediavelmente pensante tenho de permanecer calado?

Manter-me-ei em potencial sigilo para proteção da identidade do pombo. E afinal de contas, quem confiaria em alguém que conversa como pombos? Más como nem tudo possui uma lógica positivista neste mundo, há de existir alguém que admire as sabedorias do Pombo.

O Transcritor.

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