terça-feira, 30 de junho de 2009

O delírio do Pombo

Como parte dum plano onírico, mantive meus pensamentos voltados ao que sempre me foi constatado através do empirismo. Não havia Pombo algum em minhas metas, não havia nem ao menos uma responsabilidade para com o seu recém criado veículo de comunicação digital. Porém era incapaz de dissimular a mim mesmo a existência de uma abstração intelectual, o Pombo era parte de mim.

Despertei durante a noite anterior com uma sede imensurável após um suor noturno. Não havia água alguma senão aquela transportada pelos dutos precários de uma empresa sórdida. O gole foi inevitável, e o líquido desceu por meu duto digestivo proporcionando-me um sensível prognóstico daquilo que estava sendo preparado para minhas funções orgânicas no dia seguinte.

Em meio aos distúrbios gástricos e psicológicos de minha vida constatei que a presença do Pombo me ocorre somente quando estou disponível e salubre para contemplar com a mais acentuada concentração a sua presença mística, e torna-la aceitável a minha cognição de modo a não desprezar nenhuma parte da mensagem.

Após a devida dedicação para aliviar meu organismo do veneno canalizado, parte da consciência me foi restituída. Ao acordar tinha percebido claramente que estava no mundo empírico, porém demorava-me a deixar o reino onírico, com direito a lapsos de perturbações de anteriores delírios febris. Dediquei o trajeto origem a destino para tentar a passagem definitiva ao reino empírico, porém as sensações orgânicas misturadas aos sonhos durante o sono febril parecem ter criado uma intersecção temporária em minha consciência.

O Pombo estava em meu destino, assim como o havia imaginado. Estava pousado na soleira sob um jornal de distribuição gratuita do qual já havia me apropriado duma versão. Lia atentamente enquanto eu adentrava o cômodo.

- Estás acabado cara! Imagino que deves ter passado por uma longa viajem num destes seus “deslizadores asfálsticos” urbanos de transporte coletivo.

- Atividade curricular, nenhuma novidade fora as entrevistas coletivas de populares com cobradores sobre a iminente paralisação. Com respostas sempre objetivas, como num coro de greve. – O Pombo me observou durante estes poucos segundos de modo a avaliar-me psicologicamente, parecia interessar-se verdadeiramente com o meio de sua mensagem.

- Vista de cima, sua infra-estrutura de transporte é inviável sob quaisquer pontos de vista. Os fluxos populacionais vão à direção de inúmeros funis viários, tornando estes, pontos estranguladores do fluxo de outras vias. Sem contar a impossibilidade de expansão destes pontos problemáticos, já que o limite destas vias são os limites geográficos naturais de uma cidade ilha: o mar e os manguezais. Já observei noutras cidades estratégias menos primitivas de infra-estrutura viária, como as alternativas acima e abaixo da superfície, com grandes elevados acima das vias existentes e transporte subterrâneo para o fluxo massivo de populares. Más o aterramento indiscriminado que ocorre em sua cidade é a forma mais estúpida de resolução de problemas estruturais que já constatei. – O Pombo parecia demasiadamente agitado, sacudindo-se e gesticulando com movimentos rápidos das asas. De minuto em minuto observava discretamente algo no céu, como se aguardasse um sinal.

- Temo que minha interferência comunicativa em sua mídia tenha sido descoberta por algum caçador de pombos. Eles vêm disfarçados de agentes da secretaria de saúde pública, porém são matadores treinados e têm um vasto conhecimento sobre nossas sociedades e ocasionais relações com humanos. Por este motivo não virei mais a seu encontro, enviar-lhe-ei mensagens codificadas, saberás como discerni-las e decodifica-las, au revoir homo sapiens sapiens.

Os temores do Pombo eram explícitos para mim agora. Havia dois homens escorados no muro de fronte a minha janela durante a visita do Pombo, conversavam efusivamente em meio a gesticulações e contatos físicos amistosos. Após a sua partida, os dois homens se puseram a olhar para o céu, um deles com uma espécie de óculos com aparato de visão digital, outro com um computador portátil onde registrava algo que o primeiro lhe citava. Em seguida os dois homens adentraram um Audi preto e partiram em alta velocidade.

Espero que meu amiguinho consiga despista-los, quanto a mim, não consigo manter-me indiferente a esta questão perturbadora que é a conspiração, porém manter-me-ei lúcido até a próxima comunicação entre espécies.


O Transcritor

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