Despertei durante a noite anterior com uma sede imensurável após um suor noturno. Não havia água alguma senão aquela transportada pelos dutos precários de uma empresa sórdida. O gole foi inevitável, e o líquido desceu por meu duto digestivo proporcionando-me um sensível prognóstico daquilo que estava sendo preparado para minhas funções orgânicas no dia seguinte.
Em meio aos distúrbios gástricos e psicológicos de minha vida constatei que a presença do Pombo me ocorre somente quando estou disponível e salubre para contemplar com a mais acentuada concentração a sua presença mística, e torna-la aceitável a minha cognição de modo a não desprezar nenhuma parte da mensagem.
Após a devida dedicação para aliviar meu organismo do veneno canalizado, parte da consciência me foi restituída. Ao acordar tinha percebido claramente que estava no mundo empírico, porém demorava-me a deixar o reino onírico, com direito a lapsos de perturbações de anteriores delírios febris. Dediquei o trajeto origem a destino para tentar a passagem definitiva ao reino empírico, porém as sensações orgânicas misturadas aos sonhos durante o sono febril parecem ter criado uma intersecção temporária em minha consciência.
O Pombo estava em meu destino, assim como o havia imaginado. Estava pousado na soleira sob um jornal de distribuição gratuita do qual já havia me apropriado duma versão. Lia atentamente enquanto eu adentrava o cômodo.
- Estás acabado cara! Imagino que deves ter passado por uma longa viajem num destes seus “deslizadores asfálsticos” urbanos de transporte coletivo.
- Atividade curricular, nenhuma novidade fora as entrevistas coletivas de populares com cobradores sobre a iminente paralisação. Com respostas sempre objetivas, como num coro de greve. – O Pombo me observou durante estes poucos segundos de modo a avaliar-me psicologicamente, parecia interessar-se verdadeiramente com o meio de sua mensagem.
- Vista de cima, sua infra-estrutura de transporte é inviável sob quaisquer pontos de vista. Os fluxos populacionais vão à direção de inúmeros funis viários, tornando estes, pontos estranguladores do fluxo de outras vias. Sem contar a impossibilidade de expansão destes pontos problemáticos, já que o limite destas vias são os limites geográficos naturais de uma cidade ilha: o mar e os manguezais. Já observei noutras cidades estratégias menos primitivas de infra-estrutura viária, como as alternativas acima e abaixo da superfície, com grandes elevados acima das vias existentes e transporte subterrâneo para o fluxo massivo de populares. Más o aterramento indiscriminado que ocorre em sua cidade é a forma mais estúpida de resolução de problemas estruturais que já constatei. – O Pombo parecia demasiadamente agitado, sacudindo-se e gesticulando com movimentos rápidos das asas. De minuto em minuto observava discretamente algo no céu, como se aguardasse um sinal.
- Temo que minha interferência comunicativa em sua mídia tenha sido descoberta por algum caçador de pombos. Eles vêm disfarçados de agentes da secretaria de saúde pública, porém são matadores treinados e têm um vasto conhecimento sobre nossas sociedades e ocasionais relações com humanos. Por este motivo não virei mais a seu encontro, enviar-lhe-ei mensagens codificadas, saberás como discerni-las e decodifica-las, au revoir homo sapiens sapiens.
Os temores do Pombo eram explícitos para mim agora. Havia dois homens escorados no muro de fronte a minha janela durante a visita do Pombo, conversavam efusivamente em meio a gesticulações e contatos físicos amistosos. Após a sua partida, os dois homens se puseram a olhar para o céu, um deles com uma espécie de óculos com aparato de visão digital, outro com um computador portátil onde registrava algo que o primeiro lhe citava. Em seguida os dois homens adentraram um Audi preto e partiram em alta velocidade.
Espero que meu amiguinho consiga despista-los, quanto a mim, não consigo manter-me indiferente a esta questão perturbadora que é a conspiração, porém manter-me-ei lúcido até a próxima comunicação entre espécies.
O Transcritor
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